Dr. Leonardo Ferreira

Carreira Médica · 20 de março de 2025

O primeiro plantão: o abismo entre a faculdade e a vida real

Ninguém esquece a noite em que descobriu, sozinho, que o diploma não vinha com a segurança que prometia. Uma carta para quem está começando.

Por Dr. Leonardo Ferreira · atualizado em 17 de junho de 2026

Eu me lembro do meu primeiro plantão como se fosse ontem. Não pela competência — pela solidão.

Havia algo profundamente assustador em perceber, de repente, que não havia mais um professor para validar a conduta, um residente sênior para conferir a prescrição, uma rede de segurança embaixo de cada decisão. Havia eu, um paciente, e a responsabilidade inteira. O diploma, que parecia tão sólido na cerimônia de formatura, pesava muito pouco diante de uma pessoa real precisando de mim agora.

Se você está vivendo isso — ou prestes a viver — quero te dizer algo que ninguém me disse na época: o que você está sentindo é normal, é universal, e não é sinal de que você não está à altura. É sinal de que você entendeu o tamanho da responsabilidade. E isso, paradoxalmente, é um bom começo.

O abismo que ninguém menciona

Existe um abismo entre a faculdade e a prática real, e a maior crueldade é que quase ninguém te avisa sobre ele antes de você cair dentro.

Na faculdade, o conhecimento vem organizado, em capítulos, com respostas no fim. Os casos são limpos, didáticos, com o diagnóstico esperando para ser descoberto. Na vida real, o paciente não leu o livro. Ele chega com sintomas que não se encaixam, com várias doenças ao mesmo tempo, com uma história confusa e um medo que embaralha tudo. A teoria, que parecia tão completa, de repente parece insuficiente diante da bagunça da realidade.

Esse abismo não é falha sua nem falha da faculdade. É a natureza da transição. A faculdade te dá a base — e a base é indispensável. Mas a competência clínica de verdade só se constrói do outro lado, na prática, no erro corrigido, na experiência acumulada plantão após plantão. Ninguém atravessa esse abismo pronto. Todos nós atravessamos tropeçando.

A síndrome do impostor é quase um rito de passagem

Aquela voz que sussurra "você não sabe o suficiente, vão descobrir que você é uma fraude" — ela tem nome, é comuníssima, e visita praticamente todo médico no início. A síndrome do impostor não é um defeito seu; é quase um rito de passagem da profissão.

E há uma ironia importante nela: quem mais a sente costuma ser justamente quem mais se importa. Os profissionais perigosos são os que não duvidam de si — os que têm excesso de confiança e falta de autocrítica. A sua insegurança, dentro do limite saudável, é o que te mantém estudando, conferindo, perguntando, cuidando. Não a deixe te paralisar, mas também não tente eliminá-la por completo. Ela é, em doses certas, uma aliada.

Pedir ajuda é competência, não fraqueza

O erro mais perigoso que um médico em começo de carreira pode cometer não é não saber algo. É não saber e fingir que sabe.

A medicina tem uma cultura tóxica que associa pedir ajuda à incompetência. Aprendi, e quero que você aprenda mais cedo do que eu, que o oposto é verdadeiro. Pedir ajuda no momento certo é uma das competências mais maduras que existem. Ligar para um colega mais experiente, consultar a literatura antes de decidir, admitir "não tenho certeza, vou checar" — nada disso te diminui. Te qualifica.

O paciente não precisa de um médico que saiba tudo. Esse médico não existe. Ele precisa de um médico honesto o suficiente para reconhecer os próprios limites e buscar o melhor caminho. A arrogância de quem nunca pergunta já matou muito mais gente do que a humildade de quem pergunta demais.

O que eu diria a quem está começando

Se eu pudesse sentar com você na véspera do seu primeiro plantão, diria algumas coisas.

Que o cansaço vai mentir para você, te dizendo que você não é capaz, justamente nas horas em que você está mais exausto. Não acredite nele nesses momentos. Decisões sobre a sua capacidade não devem ser tomadas às quatro da manhã do fim de um plantão.

Que você vai errar. Não porque é ruim, mas porque é humano e está aprendendo. O que define o bom médico não é a ausência de erros — é o que ele faz com eles: se os esconde ou os encara, se aprende ou repete. Documente, comunique com honestidade, aprenda, siga.

Que a técnica vai melhorar mais rápido do que você imagina, quase sozinha, com a repetição. O que não melhora sozinho — e o que vai te diferenciar daqui a dez anos — é a forma como você trata as pessoas. Cuide disso desde o primeiro dia, porque é um músculo que atrofia se você o negligenciar em nome da pressa.

E que procurar um mentor, alguém que já atravessou esse abismo e pode te apontar as pedras, não é luxo nem fraqueza. É o atalho mais inteligente que existe. Eu levei anos descobrindo sozinho coisas que um bom mentor teria me ensinado em meses. Não cometa o mesmo desperdício de tempo que cometi.

Você vai chegar do outro lado

O começo é, sim, assustador. A solidão da responsabilidade é real, o abismo é real, a insegurança é real. Mas eu, que estou há vinte e cinco anos do outro lado, posso te garantir uma coisa: você atravessa.

A segurança chega. Não de uma vez, não num passe de mágica, mas plantão após plantão, decisão após decisão, paciente após paciente. Um dia você percebe que está conduzindo uma emergência com a calma que um dia te pareceu impossível. Que está ensinando alguém mais novo as coisas que você um dia teve medo de não saber. Que o abismo, sem você notar exatamente quando, virou chão firme.

Tenha paciência com o seu próprio aprendizado. Seja gentil com o médico iniciante que você é hoje — ele está fazendo o melhor que pode com o que tem. E lembre-se, nas noites difíceis, do motivo que te trouxe até aqui. Ele é a coisa mais valiosa que você carrega. Mais até que o diploma.

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