Sociedade · 22 de julho de 2024
Para Onde foi o Respeito?
O respeito pelos profissionais de saúde não evaporou por acaso. Há uma engenharia social por trás disso — e ela exige resposta.
Dr. Leonardo Ferreira
Já faz algum tempo que o respeito pelos profissionais da saúde vem diminuindo. A cada dia, menos valor se dá para um médico recém-formado. Menos valor se dá para uma enfermeira. Menos valor se dá ao ser humano.
Esse movimento vem como uma onda de mudança social e comportamental. E não se aplica apenas aos profissionais da saúde, mas a toda a sociedade. Me parece que essa onda não é algo planejado por nenhum grupo, em nenhum lado. É uma consequência das mudanças sociais e da assimilação da tecnologia disruptiva por todos nós.
Vinte anos atrás
Há vinte anos, o respeito era um pressuposto. O médico entrava no quarto e a família se levantava. O professor entrava na sala e os alunos se calavam. O policial fardado era ouvido antes de qualquer pergunta. Não que aquele mundo fosse melhor — em muita coisa era pior, e fingir o contrário é desonesto. Mas o respeito vinha antes da prova de competência. Era um cheque em branco social.
Hoje a equação se inverteu. O cheque chega vazio. Você precisa provar a cada interação que merece ser ouvido. E mesmo provando, o respeito é, na melhor das hipóteses, condicional.
O papel das redes sociais
As redes sociais democratizaram a voz. Isso é, em si, uma das maiores conquistas da nossa geração. Mas democratizar a voz não é o mesmo que democratizar a responsabilidade pelo que se diz. E aí mora boa parte do problema.
Quando qualquer pessoa pode acusar publicamente um profissional sem precisar provar nada, quando o algoritmo recompensa a indignação mais do que a verdade, quando uma reclamação pesa mais que vinte anos de prática silenciosa — o terreno social muda. Ninguém planeja isso, mas o efeito é estrutural.
Movimentos de minoria — luz e sombra
Outro vetor importante é a ascensão legítima de pautas historicamente silenciadas. Mulheres, pessoas negras, comunidade LGBTQIA+, povos originários — todos com razões absolutamente válidas para ocupar espaço e reivindicar voz. Isso é avanço civilizatório.
O ponto de atenção é quando a justa reivindicação se transforma em caricatura da desconfiança permanente. Quando todo profissional é assumidamente suspeito até prova em contrário. Quando o respeito mútuo deixa de ser o ponto de partida e passa a ser conquistado a cada interação, mesmo em contextos onde não houve nenhuma quebra de confiança. A onda perde nuance.
O paradoxo
Aqui está o paradoxo que me incomoda: muitos exigem respeito sem demonstrar autorrespeito. Querem ser tratados com a dignidade que recusam dar ao próximo. E essa equação não fecha. Respeito é uma moeda que precisa circular — quando você só recebe sem devolver, ela perde valor para todo mundo.
O convite
Não escrevo isso para reclamar. Reclamar é o oposto de mudar. Escrevo porque acredito que a saúde precisa ser reimaginada na compaixão. E que essa reimaginação começa com profissionais que se respeitam — e que, ao fazer isso, ensinam por exemplo o que é respeitar.
Não vamos voltar para vinte anos atrás. O cheque em branco social não vai voltar. E talvez seja melhor assim: o que vier agora, virá merecido.
Cada plantão, cada consulta, cada decisão clínica é uma oportunidade de reconstruir essa moeda. Devolver dignidade ao colega. Devolver dignidade ao paciente. Devolver dignidade a si mesmo.
É um trabalho lento. Mas é o único que sobrou.
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