Sociedade · 22 de julho de 2024
Para Onde foi o Respeito?
O respeito pelos profissionais de saúde não evaporou por acaso. Há uma engenharia social por trás disso — e ela exige de nós uma resposta que não seja apenas reclamação.
Por Dr. Leonardo Ferreira · atualizado em 17 de junho de 2026
Já faz algum tempo que o respeito pelos profissionais da saúde vem minguando. A cada dia, dá-se menos valor a um médico recém-formado. A uma enfermeira que cuidou a noite inteira. A um técnico que segurou a mão de quem estava com medo. Menos valor ao ser humano.
Esse movimento chega como uma onda de mudança social e comportamental. E não se aplica só aos profissionais da saúde — atinge professores, policiais, juízes, quase toda figura que um dia ocupou um lugar de autoridade presumida. Não me parece algo planejado por nenhum grupo, em nenhum lado da trincheira. É consequência das transformações sociais e da forma como todos nós absorvemos, sem manual, uma tecnologia profundamente disruptiva.
Quero pensar em voz alta sobre como chegamos aqui. Não para lamentar — lamentar é o oposto de mudar — mas para entender. Porque só se transforma o que primeiro se compreende.
Vinte anos atrás
Há duas décadas, o respeito era um pressuposto. O médico entrava no quarto e a família se levantava. O professor entrava na sala e o silêncio se fazia. O policial fardado era ouvido antes de qualquer pergunta. O respeito vinha antes da prova de competência. Era um cheque em branco que a sociedade assinava por causa do crachá, do diploma, da farda.
Não estou dizendo que aquele mundo era melhor. Em muita coisa era pior, e fingir o contrário seria desonesto. Aquele cheque em branco protegeu muito abuso, encobriu muito erro, silenciou muita vítima. Havia algo de profundamente injusto em respeitar a função independentemente da pessoa que a ocupava.
Mas é inegável que a equação se inverteu por completo. Hoje o cheque chega vazio. Você precisa provar, a cada interação, que merece ser ouvido. E mesmo provando, o respeito é, na melhor das hipóteses, condicional e revogável a qualquer momento.
O papel das redes sociais
As redes democratizaram a voz. Essa é uma das maiores conquistas da nossa geração, e não vou ser o nostálgico que finge não ver o valor disso. Gente que nunca teve púlpito ganhou um. Abusos que ficariam para sempre no escuro vieram à luz.
Mas democratizar a voz não é o mesmo que democratizar a responsabilidade pelo que se diz. E é exatamente aí que mora boa parte do problema.
Quando qualquer pessoa pode acusar publicamente um profissional sem precisar provar nada. Quando o algoritmo recompensa a indignação muito mais do que a verdade, porque a raiva engaja e a nuance entedia. Quando uma única reclamação viral pesa mais que vinte anos de prática silenciosa e competente. Quando isso acontece, o terreno social inteiro se desloca sob os nossos pés. Ninguém planejou esse efeito — mas ele é estrutural, e nos atinge todos os dias.
Movimentos legítimos e suas sombras
Há ainda um vetor mais delicado, que preciso tratar com cuidado: a ascensão de pautas historicamente silenciadas. Mulheres, pessoas negras, a comunidade LGBTQIA+, os povos originários — todos com razões absolutamente válidas para ocupar espaço, reivindicar voz e exigir reparação. Isso é avanço civilizatório, e eu o celebro sem ressalvas.
O ponto de atenção não está na reivindicação — está na sua deformação. Quando a justa luta se transforma em desconfiança permanente de tudo e de todos. Quando todo profissional passa a ser tratado como suspeito até prova em contrário, mesmo onde não houve qualquer quebra de confiança. Quando o respeito mútuo deixa de ser o ponto de partida e vira algo a ser conquistado, repetidamente, em contextos onde nada justificaria a hostilidade inicial. Aí a onda perde a nuance — e a nuance é justamente o que separa justiça de revanche.
O paradoxo que me incomoda
Há um nó nessa história que confesso não conseguir desatar facilmente: muita gente exige respeito sem demonstrar autorrespeito. Quer ser tratada com uma dignidade que se recusa a oferecer ao próximo. Cobra do outro uma postura que não pratica.
E essa conta não fecha. Respeito é uma moeda que só tem valor enquanto circula. Quando todo mundo só quer receber sem devolver, ela se desvaloriza para todos ao mesmo tempo — vira papel sem lastro. O profissional desrespeita o paciente, que desrespeita o profissional, que desrespeita o colega, num círculo que empobrece a todos.
O convite
Eu não escrevo isto para reclamar do mundo. Escrevo porque acredito, com convicção, que a saúde precisa ser reimaginada sobre a base da compaixão. E que essa reimaginação não começa em uma reforma do sistema, em uma lei nova ou em uma campanha. Começa em profissionais que se respeitam — e que, ao fazê-lo, ensinam pelo exemplo o que significa respeitar.
Não vamos voltar para vinte anos atrás. O cheque em branco social não será reemitido. E talvez — talvez — seja melhor assim. O que vier agora virá merecido, conquistado interação a interação, e não imposto pelo medo ou pela hierarquia.
Cada plantão, cada consulta, cada decisão clínica é uma oportunidade silenciosa de reconstruir essa moeda. De devolver dignidade ao colega exausto. De devolver dignidade ao paciente assustado. De devolver dignidade a si mesmo, sobretudo nos dias em que parece que ninguém está olhando.
É um trabalho lento. Quase invisível. Mas é o único que, de fato, ainda nos resta — e o único capaz de mudar alguma coisa de verdade.
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