Dr. Leonardo Ferreira

Cuidados Paliativos · 05 de novembro de 2024

Quando curar não é mais o objetivo: cuidados paliativos na UTI

A medicina me treinou para vencer a morte. Levei anos para entender que, às vezes, o ato mais médico de todos é permitir uma boa partida.

Por Dr. Leonardo Ferreira · atualizado em 17 de junho de 2026

A primeira vez que entendi que nem toda batalha deve ser lutada, eu estava errado havia muito tempo sem saber.

Tínhamos um paciente idoso, com uma doença em estágio terminal, e a equipe — eu incluído — fazia tudo. Drogas vasoativas, ventilação, procedimentos invasivos, a artilharia completa da terapia intensiva. Estávamos ganhando horas. Mas eram horas de sofrimento, de tubos, de uma vida adiada à força sem nenhuma perspectiva de retorno. A família, exausta, perguntava se "ainda havia o que fazer". E eu, treinado para nunca desistir, respondia que sim — porque parar me parecia uma falha.

Foi um colega mais velho que me fez a pergunta que mudou a minha medicina: "fazer o quê, exatamente? E para quê?"

A formação que só ensina a vencer

A medicina, sobretudo a intensiva, é construída sobre uma premissa: a morte é o inimigo, e o nosso trabalho é derrotá-la. Passamos anos aprendendo a reverter paradas, a sustentar órgãos que falham, a arrancar pacientes das mãos do que parecia inevitável. E isso é lindo, é necessário, salva incontáveis vidas.

O problema é que ninguém nos ensina o outro lado. Ninguém nos prepara para o momento em que insistir deixa de ser cuidado e passa a ser crueldade. Em que cada intervenção a mais não prolonga a vida, apenas prolonga a morte. A formação nos dá um martelo poderoso e nos faz enxergar todo paciente como um prego a ser fixado na vida a qualquer custo — mesmo quando o custo é a dignidade da pessoa que estamos tratando.

O que são, de fato, os cuidados paliativos

Existe um mal-entendido perigoso, e preciso desfazê-lo: cuidado paliativo não é "desistir". Não é deixar o paciente à própria sorte. Não é a ausência de tratamento.

É uma forma diferente — e altamente ativa — de cuidar. Quando a cura deixa de ser possível, o objetivo muda: deixa de ser prolongar a vida a qualquer preço e passa a ser garantir a melhor qualidade possível para o tempo que resta. Controle rigoroso da dor. Alívio da falta de ar, da náusea, da angústia. Atenção ao sofrimento emocional e espiritual, do paciente e da família. Comunicação honesta sobre o que está acontecendo.

Cuidar paliativamente exige, muitas vezes, mais competência técnica e humana do que continuar tratando no automático. É medicina no seu estado mais maduro.

A conversa mais difícil da profissão

Não existe ato mais delicado na nossa profissão do que sentar com uma família e dizer, com honestidade e compaixão, que o caminho agora é outro.

Aprendi que essa conversa não pode ser feita com pressa, no corredor, com jargão técnico que serve mais para nos proteger do que para esclarecer. Ela exige presença. Exige sentar, olhar nos olhos, usar palavras que a pessoa entenda e dar espaço para o silêncio, para as lágrimas, para as perguntas que não têm resposta fácil.

E exige, principalmente, que a gente largue o nosso próprio medo. Porque grande parte da insistência terapêutica fútil não é pelo paciente — é pelo médico, que não suporta a sensação de "ter perdido", e pela família, que confunde aceitar a morte com abandonar quem ama. Conduzir essa conversa com clareza e compaixão é, talvez, a mais alta expressão da comunicação na medicina.

Distanásia: o sofrimento que prolongamos

Existe uma palavra técnica para o ato de prolongar artificialmente o processo de morte, à custa de sofrimento e sem perspectiva de melhora: distanásia. E é assustador como ela acontece todos os dias, em todas as UTIs, muitas vezes com as melhores intenções.

A distanásia nasce de um lugar nobre — a recusa em desistir. Mas confunde quantidade de vida com qualidade de vida. Transforma os últimos dias de uma pessoa em uma sucessão de procedimentos invasivos, longe de casa, longe dos seus, cercada de máquinas em vez de afetos. Em nome de combater a morte, roubamos a possibilidade de uma boa morte.

A medicina contemporânea precisa ter a coragem de reconhecer que prolongar o morrer não é o mesmo que preservar o viver.

O que a morte me ensinou sobre a vida

Acompanhar tantas partidas, ao longo de tantos anos, me transformou como médico e como pessoa. Aprendi que a morte digna é, ela própria, um desfecho de sucesso — não um fracasso da medicina. Aprendi que segurar a mão de alguém nos últimos momentos pode ser tão importante quanto qualquer procedimento que eu já tenha feito. Aprendi que as famílias raramente lembram dos detalhes técnicos, mas nunca esquecem se foram tratadas com humanidade naquele momento.

E aprendi, sobretudo, que cuidar de quem está morrendo é um privilégio, não uma derrota. É estar presente no momento mais íntimo e definitivo de uma vida, e fazer o possível para que ele seja menos doloroso, mais digno, mais humano.

Uma medicina inteira

Defendo, com convicção, que a formação em cuidados paliativos deveria ser parte central da educação de todo profissional de saúde — não um detalhe de fim de currículo. Porque um médico que só sabe lutar contra a morte sabe fazer apenas metade do seu trabalho.

A outra metade — a coragem de reconhecer limites, a habilidade de aliviar o que não se pode curar, a humanidade de acompanhar até o fim — é o que separa o técnico do verdadeiro cuidador. E é essa medicina inteira, das duas metades, que eu acredito que precisamos resgatar.

Curar, quando é possível. Aliviar, sempre. Confortar, até o último instante. Essa é, no fundo, a medicina que sempre quisemos praticar — mesmo quando esquecemos disso no meio da pressa.

Conversa

Seus comentários ajudam a tornar este conteúdo ainda mais útil. Participe.

Comentários passam por moderação antes de serem publicados.